
Com pesar que recebi hoje, de um sócio querido, Sr. Pamplona, a notícia do falecimento de Michel Rolland no último dia 20 de março de 2026, aos 78 anos, em Bordeaux. O mundo da enologia perde não apenas um técnico brilhante, mas o maior ícone do conceito de “flying winemaker” (enólogo voador), que transformou a forma como o vinho é produzido e apreciado globalmente.
Saí do trabalho e comecei a ler as reportagens e postagens dos blogs que eu sigo. É unânime: o universo do vinho silenciou em respeito à partida de Michel Rolland.
Nascido em Libourne, no coração de Bordeaux, Rolland não foi apenas um enólogo; ele foi um visionário que rompeu fronteiras, prestando consultoria para mais de 600 vinícolas em 22 países e deixando uma marca indelével em cada garrafa que levava sua assinatura.
Uma Trajetória de Paixão e Inovação
Criado no Château Le Bon Pasteur, em Pomerol, Michel herdou a tradição familiar, mas sua curiosidade o levou muito além das terras francesas. Ele ficou mundialmente conhecido por seu estilo único: vinhos potentes, com frutas maduras, taninos sedosos e o uso magistral da madeira. Embora tenha sido uma figura central em polêmicas sobre a “padronização” do vinho (como retratado no documentário Mondovino), sua capacidade de extrair o melhor de cada lote era inquestionável.
A Conexão com a América Latina e o Brasil
Para mim e para todos os entusiastas do vinho sul-americano, Rolland teve um papel fundamental. Ele foi um dos primeiros a enxergar o potencial extraordinário da Argentina, onde fundou o icônico projeto Clos de los Siete, no Vale de Uco, transformando Mendoza em uma vitrine global.
No Brasil, sua influência foi decisiva para a elevação da qualidade dos nossos rótulos. Durante uma década (2003-2013), ele colaborou estreitamente com a Miolo Wine Group, ajudando a moldar vinhos que hoje são orgulho nacional, como o Lote 43.
O Toque de Mestre no Paralelo 31
Um dos marcos de sua passagem pelo Brasil foi a parceria com o apresentador Galvão Bueno. Michel Rolland foi o responsável por assinar o Bueno Paralelo 31, um corte bordalês (Cabernet Sauvignon, Merlot e Petit Verdot) produzido na Campanha Gaúcha. Rolland aplicou sua técnica para traduzir o terroir de Candiota em um vinho sofisticado e equilibrado, provando que o solo brasileiro poderia dialogar de igual para igual com os grandes clássicos do mundo.
A verdade é que este foi primeiro vinho dele que experimentei na vida, e foi marcante. Lembro como se fosse hoje. Tive o privilégio de dividir uma garrafa com o então vendedor da Miolo, Arley Firmino – Instagram: @arleyfirmnino – meu xará Eduardo, e mais dois clientes que julgava especiais na época. O local: Empório Santa Therezinha, Recreio, no qual laborei por breves 4,5 anos. Minha grande escola onde conheci grandes rótulos desconhecidos, participei de férias e eventos que me proporcionaram um upgrade sensorial e know-how de compras inigualáveis. Bem, voltando ao homenageado de hoje, me restou falar sobre sua passagem aqui na Terra.
Veja a história da Bueno Wines em “Fontes” ⤵️
O legado eterno
Michel Rolland costumava dizer que o enólogo deve “ajudar a natureza a se expressar”. Ele partiu, mas seu legado continua vivo em cada taça de um Malbec argentino encorpado, em cada blend da Campanha Gaúcha e nas milhares de vinhas que ele ajudou a plantar e cuidar ao redor do globo.
A enologia perde seu maior regente, mas as safras que ele assinou continuarão contando sua história por muitas décadas. Para conhecer mais sobre a obra do mestre, acesse o site oficial da Rolland Collection.
Que descanse em paz.
Não posso terminar essa postagem sem explicar o momento em que a reputação de nosso grande enólogo foi colocada em cheque: o documentário MONDOVINO.
Mondovino: o documentário.
A “treta” entre Michel Rolland e o documentário Mondovino (2004), de Jonathan Nossiter, é um dos capítulos mais fascinantes da história moderna do vinho. Ela expôs a divisão entre a tradição do terroir e a modernidade da globalização.Aqui está um resumo do que aconteceu e como o avaliador Robert Parker entra nessa história.
1. O Triângulo: Rolland, Parker e a “Globalização
No documentário, Michel Rolland é retratado como o “enólogo voador” que viajava o mundo de Mercedes, distribuindo a mesma receita técnica para todas as vinícolas.
- O Estilo Rolland: Ele buscava uvas muito maduras, taninos macios, baixa acidez e uso generoso de carvalho novo.
- O Poder de Robert Parker: Naquela época, Parker era o crítico mais influente do mundo. Ele adorava exatamente esse estilo de vinho: potentes, concentrados e prontos para beber.
- A “Parkerização”: Criou-se um ciclo. Se uma vinícola contratasse Rolland, ele faria um vinho no estilo que Parker pontuava com 95-100 pontos. Notas altas significavam vendas imediatas e preços elevados.
2. A Polêmica das Técnicas: Micro-oxigenação
Uma das cenas mais famosas de Mondovino mostra Rolland aconselhando seus clientes a usar a micro-oxigenação (uma técnica para suavizar taninos artificialmente). Para os puristas retratados no filme, isso era um “sacrilégio” que apagava a identidade da terra (terroir) para criar um sabor padronizado que agradasse ao paladar americano de Parker.
3. O Vilão ou o Herói?
O filme pintou Rolland e Parker como os “vilões” que queriam transformar o vinho em uma commodity global, como a Coca-Cola.
- A Defesa de Rolland: Ele sempre argumentou que sua missão era simplesmente eliminar vinhos ruins. Antes dele, muitos vinhos eram excessivamente ácidos, verdes ou mal feitos. Ele trouxe ciência e higiene para regiões que estavam estagnadas.
- A Defesa de Parker: Ele dizia que apenas premiava o que era prazeroso de beber, e que os críticos europeus defendiam vinhos “magros e defeituosos” em nome da tradição.
Fontes
A história da Bueno Wines e as assinaturas dos grandes enólogos: https://buenowines.com.br/historia/
Consulte também:
Fontes e Referências:
- Site Oficial: Michel Rolland – Rolland Collection
- Notícia do Falecimento (Internacional): Obituary: Michel Rolland (1947-2026) – Decanter
- Atuação na América Latina: Bodega Rolland e o projeto Clos de los Siete
- Contexto no Brasil: A influência de Rolland na viticultura brasileira – Revista Adega